Fraude interna não começa com roubo. Começa com acesso demais.
- Setrix Segurança em Tecnologia da Informação
- há 19 horas
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Quando um incidente de fraude interna vem à tona, a reação costuma ser imediata — e quasesempre equivocada: “quem fez isso?”
A pergunta correta raramente é essa.
Na maioria dos casos, o que transforma um erro, um atalho operacional ou até uma conta comprometida em um incidente relevante não é a intenção inicial. É o nível de acesso disponível e a liberdade de circulação do dado dentro da organização.
Fraude interna, na prática, nasce muito antes do roubo. Ela começa quando acesso demais vira normalidade.
Acesso excessivo é um risco estrutural, não um desvio pontual
Toda organização acumula acesso ao longo do tempo.
Permissões concedidas para resolver um problema específico, exceções criadas sob pressão, acessos herdados por mudança de função, terceiros que permanecem conectados.
Nada disso parece perigoso isoladamente. O risco surge quando: permissões não expiram, revisões são esporádicas, acessos são concedidos por conveniência, e ninguém consegue responder com precisão quem pode acessar o quê, e por quê.
Nesse cenário, qualquer desvio ganha escala. Não porque alguém “quis roubar”, mas porque o ambiente permite extrair mais do que deveria.
Acesso excessivo não é um detalhe técnico. É o combustível de fraudes internas e vazamentos de dados.
Exfiltração raramente parece crime no início
Outro erro comum é imaginar a exfiltração como algo sofisticado ou obviamente malicioso.
Na realidade, os caminhos mais usados para retirada de dados internos são os mais triviais: enviopor e-mail, upload para web, uso de mídia removível ou compartilhamento externo “temporário”.
Tudo isso faz parte da rotina de trabalho em muitas áreas.
Quando o fluxo legítimo do dado não é claramente definido, qualquer canal cotidiano vira uma rota de saída aceitável. O ato não parece crime. Parece trabalho sendo feito.
É exatamente por isso que DLP falha quando é tratado como polícia do arquivo.
DLP não é bloqueio. É desenho de fluxo.
Implementações de DLP focadas apenas em bloquear ações costumam gerar dois efeitos colaterais previsíveis: fricção operacional e surgimento de atalhos fora do ambiente controlado.
O dado continua saindo, só que agora sem visibilidade.
Uma abordagem madura parte de outra premissa: o dado precisa de um caminho correto para circular.
Isso exige responder perguntas básicas, mas negligenciadas:
Quais dados realmente importam?
Por quais canais eles podem transitar?
Em quais contextos esse uso é esperado?
O que foge do padrão e merece atenção?
DLP eficiente não impede o trabalho. Ele orienta o trabalho para dentro de trilhos seguros e torna desvios visíveis antes que virem incidentes.
Identidade e privilégio definem o tamanho do problema
Exfiltração não acontece no vazio. Ela depende diretamente de quem está autenticado e o que essa identidade pode fazer.
Quando identidade é tratada apenas como login válido, sem contexto, e privilégios são amplos por padrão, o ambiente deixa de distinguir: uso legítimo, uso indevido ou conta comprometida.
Do ponto de vista do sistema, tudo parece igual.
É por isso que muitos incidentes classificados como “fraude interna” poderiam ser evitados com governança básica de identidade: redução de privilégios permanentes, separação de funções, acessos concedidos por tempo e propósito e trilhas claras para ações sensíveis (exportar, compartilhar, baixar em massa).
Quanto maior o privilégio disponível, maior o impacto possível, independentemente da intenção inicial.
Proteger o negócio também é proteger quem trabalha certo
Existe um efeito colateral pouco discutido em ambientes sem governança de dados e acesso: qualquer erro vira suspeita pessoal.
Sem controles claros, a organização não consegue diferenciar: falha de processo, comportamento negligente, ação deliberada, ou conta comprometida.
Isso gera investigações confusas, desgaste interno e decisões ruins.
DLP bem implementado faz o oposto. Ele cria contexto.
Protege o negócio ao reduzir vazamentos e fraudes, mas também protege o colaborador correto, ao deixar claro o que é esperado, permitido e monitorado, sem transformar segurança em caça às bruxas.
Governar acesso é reduzir risco antes do incidente
Fraude interna não se resolve com desconfiança generalizada nem com mais bloqueios isolados. Ela se resolve com governança contínua de acesso e fluxo de dados.
Isso significa: menos exceções permanentes, menos acesso “por via das dúvidas”, mais clareza sobre circulação de dados, e mais capacidade de identificar uso fora de padrão cedo.
Quando acesso demais deixa de ser regra, fraude deixa de ser surpresa.
No fim, o papel do DLP não é punir depois do dano. É reduzir o espaço onde o dano podeacontecer, e fazer isso sem quebrar a operação.
É assim que a segurança deixa de ser reativa e passa a ser parte do funcionamento saudável do negócio.
Fontes
CISA — Insider Threat Mitigation Guide
CERT/CMU SEI — Common Sense Guide to Mitigating Insider Threats (5ª edição)
NIST SP 800-53 Rev. 5 — Controles de Acesso (AC), incluindo AC-6: Least Privilege
Microsoft Learn — “Learn about Microsoft Purview Data Loss Prevention (DLP)”
Microsoft Learn — “Learn about Endpoint DLP”




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